Blog Nusa · Guia para Visitantes
Toda a gente lhe vai dizer que Lisboa é a cidade das sete colinas. O que ninguém lhe diz é quais são, quanto custam às pernas e o que fazer quando elas apresentarem a fatura. Este guia responde às três perguntas, por ordem crescente de sofrimento.
O número não foi medido, foi escolhido. Em 1620, o frade Nicolau de Oliveira listou sete colinas no seu Livro das Grandezas de Lisboa, muito provavelmente para pôr Lisboa ao nível de Roma, que também se gaba das suas sete. A verdade é que a cidade tem mais elevações do que isso, e o ponto mais alto nem sequer entra na lista: é Monsanto, com os seus 226 metros. Mas sete soava bem há 400 anos e continua a soar bem hoje. Fiquemos pelas sete oficiais.
Esforço: 2/7. A colina de que ninguém fala. Sobe do Rossio em direção ao Campo dos Mártires da Pátria, com um declive educado e sombra q.b. Durante séculos foi a colina dos hospitais e dos conventos, e ainda hoje é território de batas brancas. Bónus: o Elevador do Lavra, o funicular mais antigo da cidade (1884), faz a subida por si. Lá em cima espera-o o Jardim do Torel, um dos segredos mais bem guardados de Lisboa.
Esforço: 3/7. É a colina do Chiado, dos cafés com estátuas de poetas e das livrarias centenárias. A subida faz-se quase sem dar por ela, entre montras. No topo, as ruínas do Convento do Carmo continuam sem telhado desde o terramoto de 1755, de propósito: são o memorial mais impressionante da cidade. Batota permitida: o Elevador de Santa Justa liga a Baixa ao Carmo em menos de um minuto.
Esforço: 4/7. Oficialmente chama-se São Roque, mas o mundo conhece-a por Bairro Alto. O Elevador da Glória (1885) poupa-lhe a subida desde os Restauradores. Lá em cima, a igreja de São Roque esconde, atrás de uma fachada modesta, uma das capelas mais caras alguma vez construídas: encomendada em Roma, abençoada pelo Papa e enviada de barco para Lisboa. À noite, a colina cobra uma segunda subida, e essa ninguém lha poupa.
Esforço: 5/7. Não é a mais íngreme, é a mais teimosa: sobe, sobe e continua a subir até ao mosteiro de São Vicente de Fora e à cúpula branca do Panteão Nacional. Às terças e aos sábados, a recompensa chama-se Feira da Ladra, o mercado de velharias mais antigo da cidade. Traz-se de lá um azulejo antigo, um disco riscado e menos dois centímetros de gémeos.
Esforço: 6/7. No papel parece inofensiva. Na prática inclui a Rua da Bica de Duarte Belo, uma das ruas mais íngremes e mais fotografadas do país, com o funicular da Bica (1892) a gemer pelo meio. No topo, o miradouro de Santa Catarina e o Adamastor recompensam com um dos melhores pores-do-sol sobre o rio. Fica mesmo por cima do Cais do Sodré, o que explica muita coisa sobre os nossos clientes dessa zona.
Esforço: 6,5/7. A subida original, feita há mil anos por mouros, cruzados e agora por si. O caminho atravessa as escadinhas de Alfama e termina no Castelo de São Jorge, onde os pavões residentes o observam sem qualquer compaixão. A vista é a melhor da cidade. A descida, atenção, é quase tão dura para os joelhos como a subida foi para os gémeos.
Esforço: 7/7. A colina da Graça é a mais alta das sete e começa a subir logo no Intendente, sem aquecimento. O prémio está à altura do castigo: o miradouro da Senhora do Monte, o ponto mais alto do centro histórico, com Lisboa inteira aos pés. O elétrico 28 faz esta subida a ranger, e há qualquer coisa de reconfortante em sofrer ao lado de um veículo centenário.
Conta a lenda que ninguém sobe as sete colinas no mesmo dia. Os nossos clientes que tentaram confirmam: a lenda tem razão. As terapeutas reconhecem-nos à entrada pelo passo hesitante.
Somadas, as sete colinas são um treino de escadas disfarçado de passeio romântico. Os pés pedem uma reflexologia, os gémeos e as costas exigem uma deep tissue, e o resto de si merece uma massagem de relaxamento. O nosso spa fica em Saldanha, estrategicamente instalado num dos raros pedaços planos da cidade. E se as pernas se recusarem a fazer mais um metro, fazemos nós o caminho: vamos ao seu hotel, em qualquer uma das sete colinas. Sem suplemento de altitude.
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